(Con)viver com a História - A memória do Holocausto na Polónia

O Projeto (Con)viver com a História levou um grupo alunos das turmas do 12ª 10ª e do 12º 11ª até Cracóvia e aos campos de extermínio Auschwitz e Birkenau - Polónia.

As afirmações e o texto que se transcrevem nos parágrafos seguintes pretendem, a partir do relato da profundidade da experiência vivida, levar a que cada um dos leitores se deixe interpelar quanto ao seu compromisso com o bem comum da história dos nossos dias.

  • "fez-nos crescer e ver a vida de outra perspetiva";
    "Auschwitz- Birkenau foi ainda mais chocante do que previa";
  • "relembrar as histórias e nomes de inocentes [...] fez-me pensar, ainda mais, que em pleno século XXI existam situações semelhantes às suas";
  • "estando "lá" é tudo muito mais nítido e incontestável. É difícil de perceber como é que ainda existem pessoas a não acreditar no Holocausto."

 

Crónica de uma viagem a Cracóvia

​​A decisão sobre a minha participação na viagem de estudo a Cracóvia resultou de uma ponderação consciente. Após o envolvimento com a informação histórica, designadamente o período das Grandes Guerras, ficou confirmado o meu interesse em conhecer os locais concretos, em tempo real.

Mas era também mais do que isso. Tratava-se de corresponder a um ímpeto que há vários anos havia surgido em mim: a vontade de manifestar o profundo respeito pelas vidas humanas que estiveram envolvidas em momentos tão marcantes da nossa história recente. Tinha, por isso, consciência de que era uma viagem e um motivo de homenagem.

A possibilidade de ter alojamento na Polónia, na cidade de Cracóvia, justamente num bairro judeu constituía outro motivo de especial atenção. E as minhas expectativas não foram goradas. Quando chegámos à cidade pude constatar que apesar da fortíssima impressão histórica, a cidade vivia, passeava, e era luminosa. Percebi que a história está presente em cada pedra, em cada porta, em cada esquina, em cada janela... Também na atmosfera dos jardins, amplos ou discretos, a história se faz presente, tem uma dimensão viva e real, tal como o comprova a imensa juventude que se cruza naquela cidade.

Compreendi também que Cracóvia é uma cidade de muitas convergências, entre tempos e entre pessoas. Não importa quem lá vive ou quem lá está simplesmente de passagem, tal como nós. Existe um profundo sentido de respeito pela história que atravessa gerações, países, credos, ideologias... E, neste sentido, Cracóvia representou para mim um símbolo da reinterpretação positiva da história – possibilitar futuros em diálogo respeitoso com as memórias recentes.

Sabendo que foi uma cidade alvo, devastada pela guerra, impressionou-me reencontrar o poeta, o escritor, os matemáticos,… nas estátuas que lhes prestam homenagem, espalhadas pela cidade. Sensibilizou-me a maneira súbtil como a mensagem histórica se faz presente. Evitando ser demasiado óbvia nem invasiva, em todo o pormenor persiste um cuidado, uma singular atenção de que as cadeiras expostas na Praça do Gueto, que convidam a sentar e a refletir, são um notável exemplo.
Relativamente ao quarteirão judeu de Kazimierz, fiquei surpreendida pela vitalidade e alegria que se vive nas ruas, pela juventude que o anima à noite, fazendo dele um ponto de atração turística integrado na cidade sem trair o respeito e a convivência com o passado.

Por outro lado, diferente foi a minha “leitura” das visitas às sinagogas Stara, Remuh, e ao cemitério. Ali compreendi claramente que existem códigos interditos, vivências e experiências que são património “selado” pela própria cultura judaica. Ou seja, a nossa será sempre uma leitura “de fora”, pois existe um conjunto de procedimentos, de vivências e de significados que, embora sejam visíveis, permanecem incompreensíveis e resguardados ao nosso olhar.

Das várias visitas que fizemos terei que destacar o confronto com o portão onde está inscrito “Arbeit Macht Frei”. Auschwitz é um lugar que existe muito para além daquele lugar. Pela energia que emana e pela prova histórica que representa. Atendendo ao muito que já foi dito e escrito sobre este campo de concentração, apenas posso confirmar a impressão do absurdo e do imenso sofrimento ali vivido. Porque as palavras jamais conseguiriam reproduzir aquele silêncio sufocante, que grita, parece-me particularmente significativo referir a inocência que, ainda assim, encontrei nos desenhos das crianças judias que por ali passaram. Os campos de concentração de Plaszow, Auschwitz e Birkenau permanecem para mim como uma metáfora da eterna pergunta: como foi possível?

A finalizar, sinto que esta viagem guarda ecos que escutarei durante toda a vida. Por um lado, pelos momentos partilhados, pelo trabalho da organização e pelo excelente companheirismo. Tudo correu na perfeição.

Por outro lado, porque me fez perceber – e sentir – a convivência entre o passado e o presente, mas também o confronto das pulsões entre a morte e a continuidade da vida.

Apesar de todas estas experiências abrirem várias interpretações possíveis, há uma reflexão maior que persiste em mim. Atendendo à lição do Holocausto e ao imperativo que Auchswitz não se repita, impõe-se refletir urgentemente sobre as formas de governação e a racionalidade que as sustentam: como construir uma sociedade mais responsável e mais solidária?

Filipa


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